Seminário em Florianópolis discute o enfrentamento ao tráfico de pessoas e contrabando de migrantes

Em resposta ao avanço de rotas clandestinas e redes criminosas que exploram migrantes e pessoas em vulnerabilidade socioeconômica, Florianópolis sediou o III Seminário de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes de Santa Catarina. 

 

Realizado no dia 18 de setembro, no Ministério Público Federal em Santa Catarina, o evento reuniu  autoridades do Governo Federal, Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina, representantes da Organização das Nações Unidas (ONU), pesquisadores e sociedade civil para qualificar o debate técnico e fortalecer a rede de proteção no estado. 

 

O Seminário iniciou com uma oficina prática sobre o Protocolo de Escuta Qualificada para Grupos Vulneráveis, ministrada por Marina Bernardes de Almeida, Coordenadora-Geral da Coordenação-Geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao lado de Carolina Becker, da Agência da ONU para as Migrações (OIM) em Santa Catarina.

 

A partir de casos simulados, foram apresentadas técnicas de abordagem, tipos de perguntas e como identificar durante um atendimento relatos que apontam para tráfico humano, bem como realizar os encaminhamentos adequados. Os participantes do seminário se dividiram em grupos e coletivamente dialogaram sobre como agir nas situações apresentadas na oficina.

Marina Bernardes de Almeida durante a oficina prática sobre o Protocolo de Escuta Qualificada para Grupos Vulneráveis.

 

Na parte da tarde, após abertura da mesa solene com a participação do Procurador do  Trabalho Acir Alfredo Hack , o  professor André Dalla Possa, do Laboratório de Cidadania Digital do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), apresentou o projeto Likes que Engajam, Laços que Protegem: produção de conhecimento e abordagem preventiva em rede para cidadania digital contra o Tráfico de Pessoas. O projeto é  voltado à prevenção ao tráfico de crianças e adolescentes por meio de oficinas presenciais, materiais informativos e educação para o uso seguro da internet. 

 

Em seguida, no painel Rotas Invisíveis: os Desafios do Enfrentamento ao Contrabando de Migrantes, a diretora da organização Círculos de Hospitalidade, Bruna Kadletz, relatou a missão de campo ao Amapá, em agosto deste ano, com objetivo de compreender o crescente fluxo migratório envolvendo cubanos que ingressam no Brasil pela fronteira com a Guiana Francesa. De acordo com relatos dos migrantes, que deixam Cuba em razão da grave crise econômica, o trajeto até o Brasil é marcado por arriscadas travessias por rios, florestas e extorsões por parte de coiotes e redes criminosas.

 

“O nosso papel no seminário foi de pensar as políticas migratórias, ou a falta delas, que fazem com que as pessoas sejam forçadas a escolher rotas irregulares para entrar no Brasil. Foi também de promover a incidência política para que a gente possa viabilizar rotas regulares e outras formas de regularização para cubanos no Brasil”, explica Bruna Kadletz. 

Bruna Kadletz, diretora da Círculos de Hospitalidade, relatou a missão ao Amapá sobre o fluxo migratório de cubanos e defendeu rotas regulares e políticas migratórias.

De acordo com dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), em 2025, cidadãos cubanos registraram 41.919 pedidos de refúgio no Brasil, um crescimento de 88,1% em relação a 2024.

 

Devido à falta de opções de vistos consulares e de políticas migratórias específicas para lidar com a situação dos cubanos, o pedido de refúgio acaba sendo atualmente o único mecanismo jurídico para ingressar e iniciar o processo de regularização no Brasil após cruzar a fronteira. Pela lei, qualquer pessoa que esteja em território brasileiro tem o direito de solicitar refúgio, independentemente da forma como ingressou no país. 

 

Porém, esta ferramenta de proteção internacional é destinada a indivíduos que enfrentam perseguição direta e individualizada, seja por raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política, ou pessoas que fogem de grave e generalizada violação dos direitos humanos. A falta de uma  política facilitada e desburocratizada para lidar com o perfil da migração cubana resulta em processos longos, que sobrecarregam a análise do governo e adiam a integração dessa população no Brasil. 

 

Além de abordar o fluxo cubano pelo norte do país, o painel também contou com a apresentação da professora Luciene Dal Ri, da UNIVALI,  sobre o contrabando de imigrantes haitianos no Brasil, população que também tem buscado o país por causa do colapso econômico e constante sensação de insegurança no Haiti. Também participaram do painel  Marina Bernardes, Coordenadora-Geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes (MJSP), Carolina Becker (OIM) e Luciana Campos (ABIN). 

 

De acordo com  a Coordenadora-Geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, a coleta de dados e estatísticas tem sido uma prioridade do Estado brasileiro para lidar com a ocorrência do crime no país. 

 

“Hoje a gente já tem um painel de dados sobre tráfico de pessoas que é atualizado anualmente e que permite a gente conhecer as mudanças de perfil, as mudanças de fluxo onde tem havido uma maior incidência. É claro que é um processo em aperfeiçoamento constante, pois ainda há bases de dados que precisam ser incorporadas. A gente tem também outras estratégias, como sistemas de gestão de casos que devem ser disponibilizados para toda a rede nacional e, com isso, a gente conseguir garantir um registro adequado dessas ocorrências e produzir evidências sobre o fenômeno. Convido vocês a conhecerem a plataforma e o relatório nacional de dados e refletir como se engajar a partir do seu estado, a partir da sua rede nesse enfrentamento”, destacou Marina.

 

O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas 2025, lançado em julho de 2026, está disponível no site do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre os dados apresentados, o trabalho análogo à escravidão segue como a principal finalidade do tráfico humano, seguido da exploração sexual. 

 

 Pela primeira vez, mulheres foram maioria das vítimas brasileiras no exterior, tendo o Camboja como o principal destino, com vítimas atraídas por redes sociais para trabalho forçado em fraudes digitais. Também são apontados avanços no combate ao crime, com aumento de indiciados pela PF e de procedimentos no MPT.

 

Em Santa Catarina

 

De acordo com dados da plataforma  SmartLab,  iniciativa  desenvolvida em parceria pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), 1.131 trabalhadores foram resgatados de trabalho escravo entre 1995 e 2024 (com média anual de 37,7), sendo que 63% atuavam no setor agropecuário e a maioria dos afetados tinha entre 18 e 24 anos. Além disso, o estado de Santa Catarina  figura simultaneamente como origem (472 resgatados) e destino (511 resgatados) das redes de exploração, que também abrangem o trabalho doméstico e aliciamento de migrantes, reforçando a importância de denúncias via Disque 100 e de ações de conscientização coordenadas por diversos órgãos parceiros.

 

O III Seminário de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes de Santa Catarina foi  promovido pela Círculos de Hospitalidade, MPT/SC, MPF/SC, Agência da ONU para as Migrações (OIM), TRT-12 e UNIVALI, no âmbito do Fórum de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de SC (FONTET/SC). O encerramento contou com um café intercultural, com comidas típicas preparadas por empreendedores migrantes, e apresentação cultural com música síria.

 

(texto/fotos: Sansara Buriti – Círculos de Hospitalidade)

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Cynthia Orengo

Vice-presidente

Cynthia é gestora de pessoas e servidora do Ministério Público Federal. Trabalha com projetos que resgatam o princípio da dignidade da pessoa humana, por meio de ações de responsabilidade social e voluntariado. Foi parceira da Círculos de Hospitalidade em diversos projetos e ações, como o Pedal Humanitário, que idealizou junto com a Bruna Kadletz. Apaixonada  pelas causas humanitárias, acredita em um mundo sem muros e fronteiras. Na organização, trabalha com ações de acolhimento, proteção e integração de pessoas deslocadas.