Cada história de migração é única. Há quem tenha vindo para o Brasil em busca de trabalho, quem tenha chegado por meio de um intercâmbio ou oportunidade de estudo, quem tenha vindo em busca de um recomeço após enfrentar guerras, desastres ambientais, crises humanitárias, políticas e econômicas.
E a migração não termina na chegada; é apenas o início de uma longa caminhada. Aprender o idioma, criar novos laços, construir o sentimento de pertencimento, tudo isso faz parte do caminho. Neste percurso, a naturalização é mais um passo na construção de uma relação com o país onde se vive, se sonha e se realiza.
Neste domingo, 4 de outubro, 158,7 milhões de eleitores poderão ir às urnas para escolher os representantes que ocuparão os principais cargos políticos do Brasil. Entre as pessoas habilitadas a votar estão os brasileiros naturalizados, pessoas que nasceram em outros países e que hoje podem participar da vida política brasileira.
De acordo com dados do último Censo (2022) do IBGE, o número de nascidos no exterior que se naturalizaram no Brasil é de 216,3 mil pessoas. Dados recentes do ObMigra (Observatório das Migrações Internacionais) mostram que, entre 2024 e 2026, 31,52 mil pessoas se naturalizaram no país, a maioria do Haiti, Cuba e Venezuela.
A Círculos de Hospitalidade conversou com quatro brasileiros naturalizados, nascidos na Argentina, no Haiti e na Venezuela. Para dois deles, será a primeira vez diante da urna eletrônica brasileira. Outros dois já votaram em eleições anteriores e conhecem a experiência de participar como eleitores das decisões políticas do país.

Siliane Bremand Ulysse
Há 12 anos, Siliane veio do Haiti para o Brasil com o objetivo de estudar e trabalhar. Formada em Ciência da Computação, ela conta que ao longo desses anos o Brasil se tornou uma parte importante de sua história pessoal e profissional. A naturalização foi uma escolha baseada em vários motivos, como a possibilidade de conseguir uma bolsa de estudos para as filhas, participar de concursos públicos e ter mais segurança jurídica.
“Ter o Título de Eleitor mudou minha relação com o Brasil porque passei a ter mais participação na vida política do país. Como já tive a oportunidade de votar, a sensação foi muito especial, pois representa uma conquista importante depois de tantos anos vivendo aqui. Senti que estava exercendo um direito e participando, de forma responsável, da sociedade brasileira”, diz Siliane, que atualmente vive em Palhoça, na Grande Florianópolis.
Para ela, os políticos eleitos precisam assumir um compromisso maior com a integração da população imigrante, especialmente no mercado de trabalho, onde muitos migrantes são relegados a funções que não correspondem à sua qualificação profissional.
“Se estudamos nas mesmas faculdades, temos formação e capacidade, por que ainda existe diferença quando chegamos ao mercado de trabalho? Gostaria que houvesse mais oportunidades, respeito e inclusão para os imigrantes. Queremos ter os mesmos direitos e oportunidades em todos os lugares, sem discriminação. Gostaria que os imigrantes fossem tratados com respeito, igualdade e tivessem oportunidades para crescer profissionalmente e participar plenamente da sociedade brasileira.”

Jean Samuel Rosier
Natural do Haiti, Jean mora no Brasil há 15 anos. Economista, atualmente é doutorando em Relações Internacionais pela UFSC e pesquisador especialista da FAPESC. A vinda para o Brasil ocorreu em 2011, um ano após o terremoto no Haiti, que matou cerca de 220 mil pessoas e afetou pelo menos 3,5 milhões de habitantes. Por meio de ajuda humanitária oferecida pelo Brasil, ele conseguiu uma bolsa de estudos na UFSC, em Florianópolis. Em 2018, decidiu fixar residência no país de maneira definitiva e iniciou o processo de naturalização.
“Minha naturalização saiu no final de 2019, então esta será a terceira vez que vou votar. As políticas públicas impactam e transformam vidas, sobretudo em termos de redução das desigualdades, e elas dependem das pessoas que elegemos. O futuro do país depende de quem ocupa as instâncias de poder, e a permanência desses representantes em uma democracia depende dos eleitores. O futuro do Brasil tem um grande impacto sobre a minha vida e a do meu filho. Por isso, é preciso escolher com consciência”, afirma Jean.
O economista concluiu destacando a relação entre sonhos e a responsabilidade dos políticos com a população imigrante.
“Para mim, os imigrantes são grandes sonhadores, e os sonhos deles dependem do presente e do futuro do país em que eles vivem. Eles estão aqui para tornar o Brasil ainda maior. Que os políticos possam estar ao lado da população imigrante no combate à xenofobia e ao racismo, para que eles possam viver com dignidade e contribuir para tornar o Brasil um lugar melhor para se viver.”
A 1ª eleição como brasileiros naturalizados

Guillermo Omar Orsi
Para o argentino Guillermo, a migração foi um processo gradual. A primeira vinda ao Brasil foi em 2011. Enquanto cursava Ciência Política na Universidade de Buenos Aires, ele veio fazer um intercâmbio de seis meses na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Até aquele momento, nunca havia pensado em morar no Brasil, mas ao chegar a Porto Alegre se surpreendeu com a estrutura da universidade e com as políticas públicas de assistência estudantil.
“Eu fiquei muito surpreso com o que encontrei, porque, embora a Universidade de Buenos Aires seja a maior universidade da Argentina, em termos estruturais e em termos dos recursos que possui, na minha experiência, ela fica para trás em relação à UFRGS. Há coisas que chamam a atenção: os prédios históricos, o acesso à internet em todo lugar, o Restaurante Universitário, as bibliotecas, os tipos de assistência estudantil que existem, as bolsas, as possibilidades de intercâmbio, de viagens.”
Após concluir a graduação na Argentina, Guillermo fez mestrado e doutorado em Sociologia na UFRGS. Ficar definitivamente no Brasil ainda não fazia parte dos planos, mas oportunidades de lecionar em universidades em Chapecó e o relacionamento com uma brasileira desenhavam um futuro do qual ele demorou a se dar conta.
“Foi um choque de realidade quando percebi que fazia 10 anos que estava morando fora e que, de fato, estava morando aqui, não simplesmente passando um período. Foi aí que resolvi fazer a naturalização, por questões burocráticas, em termos de acesso a alguns processos seletivos, e também por questões de documentação, para poder facilitar a obtenção de outros documentos, como o próprio título de eleitor.”
Em 2026, Guillermo vai votar pela primeira vez no Brasil. Ele reconhece que, diferentemente de grande parte dos imigrantes, sua migração foi privilegiada, pois além de bolsas de estudo e da facilitação da migração para residentes de países do Mercosul, caso precisasse, poderia contar com o suporte familiar.
“Acho que estamos num momento muito particular do planeta em que a migração está relacionada de uma maneira muito mais expressiva do que em outros momentos à negatividade, à ameaça, ao perigo, à insegurança. Eu gostaria que os políticos que venham a ser eleitos não sejam aqueles que reproduzem esses discursos […] A maior parte dos migrantes não migra por desejo, mas fugindo da fome, da guerra, da violência. Quando a gente tem essa noção, deixa de enxergar o migrante como alguém que vem se aproveitar, mas como alguém que tem o desejo de viver tranquilo.”

Diorwis Velásquez
O colapso econômico e social na Venezuela fez com que os pais de Diorwis deixassem o país rumo ao Brasil, há 9 anos. Ainda criança, ele chegou a Boa Vista (RR) com a família, onde viveram por algum tempo até serem interiorizados, em 2019, para Chapecó, pela Operação Acolhida, iniciativa do Governo Federal em parceria com a Agência da ONU para as Migrações (OIM). Por meio da interiorização, o pai dele já saiu de Roraima com uma vaga de emprego sinalizada no oeste catarinense, o que trouxe mais segurança à família.
“Desde então o Brasil se tornou o lugar onde cresci. Cheguei com 12 anos aqui, comecei a estudar, a construir minha vida e minha trajetória pessoal e profissional”, conta o jovem, que além de estudante de Relações Internacionais atua no CAI (Centro de Atendimento aos Imigrantes) de Chapecó.
Hoje, aos 21 anos, é brasileiro naturalizado e neste domingo estará diante da urna pela primeira vez.
“Sinto que é uma conquista e tem um significado especial para mim. Finalmente vou ter a oportunidade de participar de um processo eleitoral, fazer parte da população que elege seus representantes e decide os rumos do país, não só nos próximos quatro anos, mas durante um bom tempo, porque há políticas que são de Estado e vão além de representantes.”
Sobre a integração no Brasil, ele acredita que é necessário criar políticas públicas que possam integrar e valorizar a bagagem cultural e profissional de pessoas imigrantes, tornando menos burocrático, por exemplo, o processo de revalidação de diplomas do exterior.
“Acredito que a integração, diferentemente da adaptação, tem que ser entendida como um processo de mão dupla, que envolve a adaptação de quem chega, mas também a participação e recepção, a abertura da comunidade local.”
Círculos de Hospitalidade oferece oficinas de naturalização

Mensalmente, a Círculos de Hospitalidade oferece gratuitamente uma oficina online de naturalização no Brasil. Esses encontros são uma oportunidade de entender sobre o processo e promover a autonomia das pessoas que desejam iniciar sua naturalização.
“Com a naturalização brasileira, a pessoa migrante passa a ter igualdade de direitos como o brasileiro nato. Além de ter acesso aos documentos brasileiros, adquire o direito político de votar e ser votado, e permissão para tomar posse em concursos públicos. Como o processo pode ser burocrático, a Círculos de Hospitalidade oferece oficinas mensais de naturalização.
Nesses encontros, são detalhados os diferentes tipos de naturalização, os pré-requisitos (sendo o principal possuir residência indeterminada no Brasil, ou seja, possuir a carteira de registro nacional migratório com status de residente permanente), além de apresentar a documentação necessária e todo o passo a passo do processo dentro do Naturalizar-se [plataforma online do Governo]”, explica Thais Fiuza, agente de proteção e regularização migratória na Círculos de Hospitalidade.
texto: Sansara Buriti (Círculos de Hospitalidade) | fotos: arquivo pessoal


