Do trabalho doméstico ao universo digital: a história de Sharon no  Projeto Migra.Tech

Todos os dias, a venezuelana Sharon Yervi, de 26 anos, cuida de crianças, limpa e organiza casas de famílias em Florianópolis, um trabalho que exige presença e muita disposição. Em paralelo à rotina corrida, ela vem planejando uma mudança profissional, com o objetivo de adquirir novos conhecimentos, melhorar sua remuneração e ter mais tempo para cuidar de si e da própria família. 

A necessidade de mudança se tornou ainda mais urgente este ano, depois que o marido sofreu um acidente de moto e ficou temporariamente impossibilitado de trabalhar. Sharon passou a dedicar mais tempo em casa para auxiliar na recuperação do companheiro, sem deixar de garantir o sustento do lar.

Foi através da organização Círculos de Hospitalidade que ela soube do projeto Migra.Tech, uma iniciativa para promover a integração social e econômica de migrantes por meio de cursos tecnológicos na plataforma on-line Capacita-te Brasil, no escopo do projeto PotencIA.

Sharon já vinha buscando cursos de tecnologia, mas o alto custo das formações representava uma barreira. A oportunidade de se capacitar gratuitamente com o Migra.Tech foi um grande atrativo.

Ela participou de um dos módulos da Trilha FluencIA, onde a turma, formada por alunos de diversos países, como Argentina, Colômbia, Uruguai e Venezuela, aprendeu os conceitos essenciais de Inteligência Artificial (IA), desde a sua história até aplicações práticas, e desenvolveu habilidades digitais para o mercado de trabalho.

“Eu ouvia falar sobre IA, mas não usava, não sabia bem o que era. Tenho interesse em trabalhar com marketing digital e acredito que esse curso é uma boa opção. Penso que muitos migrantes podem se beneficiar dessa oportunidade. Além disso, tem a parte de conhecer pessoas, fazer contatos, isso pode abrir portas”, diz Sharon. 

Sharon viu no curso Migra.Tech uma oportunidade para adquirir novos conhecimentos e iniciar uma nova carreira.

As aulas aconteceram no 1º semestre de 2025 no laboratório de informática do Centro Universitário Cesusc (Unicesusc), em Florianópolis, em parceria com o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, envolvendo docentes e alunos extensionistas.

 

“A gente trouxe essa trilha da Microsoft com noções básicas sobre o que é inteligência artificial, seu histórico, um pouco do que é a IA generativa e qual a importância dela no mercado de trabalho e na formação de profissionais. Ou seja, uma trilha que oferece uma introdução à IA e mostra como utilizá-la no dia a dia pessoal e profissional. Com esses conhecimentos, eles atingem uma base de competências que valoriza o portfólio curricular, facilitando a inserção no mercado de trabalho”, explica Sérgio Schutz, professor e coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

As aulas ocorreram na Unicesusc, em Florianópolis, ministradas pelo professor Sérgio e alunos do curso Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

Sharon conta que o professor motivou a turma com uma abordagem aberta e atenta às necessidades de aprendizado de cada aluno. Mesmo sem computador em casa, ela faz o que pode no celular para praticar o que aprendeu e tem aplicado as novas habilidades na vida pessoal e em sua comunidade.

“Hoje em dia é tudo novo, não é como quando eu estava na escola. Tenho usado a IA para pesquisar e criar artes, traduzir, corrigir textos em português, pois ainda tenho um pouco de dificuldade com o idioma, e para auxiliar meu filho em atividades escolares”, conta Sharon.

Esaú, de 7 anos, chegou da escola com a tarefa de criar um jogo sustentável que tivesse como personagem algum animal em risco de extinção – tema que estava sendo trabalhado em sala de aula. Ele decidiu fazer um jogo sobre pinguins. Sharon então usou a IA para buscar mais informações para conversar com o filho sobre as características e o ambiente dos pinguins, além de pesquisar referências de materiais recicláveis que poderiam ser utilizados na construção do jogo. O resultado foi um jogo de boliche, onde garrafas PET customizadas por Sharon e Esaú se transformaram em graciosos pinguinzinhos.

Sharon tem utilizado a IA para pesquisar e apoiar o filho em projetos escolares e de lazer  entre amigos da comunidade de sua igreja.

 

Esaú, filho de Sharon, em atividade na escola.

 

A sessão de cinema das crianças da igreja também ganhou um toque especial. Os convites para sessão e os baldinhos de pipoca personalizados foram criados por ela a partir da IA. Sharon também já foi empreendedora na área de culinária e venda de cosméticos e planeja usar as novas ferramentas digitais na criação de seu negócio na área de marketing digital. 

 “Tenho um conhecimento básico e estou me preparando para me aprofundar e poder atuar profissionalmente com marketing digital, ter horários de trabalho mais flexíveis e até poder trabalhar remotamente. Vou continuar frequentando o curso, o próximo módulo começa em breve!”, diz Sharon, com empolgação pela volta às aulas do Migra.Tech. 

O Migra.Tech: Inclusão Digital de Migrantes é implementado pela Círculos de Hospitalidade e desenvolvido no âmbito do Projeto PotencIA, uma iniciativa da The Trust for the Americas, com financiamento da HP Foundation e apoio da Microsoft e Avanade. Todos os cursos oferecidos são certificados pela Microsoft. 

 

Texto: Sansara Buriti (Círculos de Hospitalidade)

Fotos: Sansara Buriti e Sharon Yervi (arquivo pessoal)

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Cynthia Orengo

Vice-presidente

Cynthia é gestora de pessoas e servidora do Ministério Público Federal. Trabalha com projetos que resgatam o princípio da dignidade da pessoa humana, por meio de ações de responsabilidade social e voluntariado. Foi parceira da Círculos de Hospitalidade em diversos projetos e ações, como o Pedal Humanitário, que idealizou junto com a Bruna Kadletz. Apaixonada  pelas causas humanitárias, acredita em um mundo sem muros e fronteiras. Na organização, trabalha com ações de acolhimento, proteção e integração de pessoas deslocadas.